sábado, 11 de agosto de 2012

Saneamento básico é o maior problema ambiental do Brasil, diz especialista da UnB


A falta de saneamento básico causa mais impacto ambiental negativo ao Brasil do que o desmatamento ou a execução de projetos para a obtenção de energia. A avaliação é do professor de engenharia civil e ambiental da Universidade de Brasília, Oscar Netto. “Em média, todo brasileiro vai se deparar, em algum momento do seu dia, com problemas ambientais causados pela falta de saneamento. Sobretudo no que se refere a saneamento urbano, nós temos um grade desafio pela frente”, disse.
Oscar Netto ressalta a última enchente do Rio Negro, no Amazonas, como exemplo do que a falta de coleta e destinação adequada dos detritos sólidos podem provocar. Segundo ele, um evento natural periódico foi agravado pelo lixo que boiava e causava contaminação.
É na Região Norte, inclusive, onde o problema de falta de coleta e tratamento de esgoto é pior. Enquanto a média nacional de coleta de esgoto nas residências é 44,5%, no Norte do país é apenas 6,2%, segundo dados de 2009 do Ministério das Cidades, quando foi concluído o último Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto.
Netto defende que a população cobre das autoridades medidas para esse quadro da falta de saneamento básico seja transformado. “Todo brasileiro que acompanha a televisão está sabendo do desmatamento, da construção das usinas, mas o saneamento não é tratado da mesma forma. Essa questão não aparece no topo das políticas públicas”, disse. A mesma crítica ele estende ao movimento ambientalista que não estaria se dedicando com afinco à essa questão.
O diretor adjunto de Campanhas do Greenpeace, Nilo D’Ávila, discorda que o assunto seja esquecido pelo movimento ambientalista. Ele admite que esta não é uma bandeira da organização da qual faz parte, mas garante que há outras organizações não governamentais (ONGs) no país trabalhando para que seja dada mais atenção à limpeza de rios e aterros sanitários.
Na opinião de D’Ávila, a falta de dedicação à questão do saneamento básico é dos governos. “É fato que não adianta ter uma ONG batendo se não há vontade do governo de fazer saneamento público. Tanto é que o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] do saneamento empacou. Saneamento é uma política pública que está diretamente ligada com a saúde. Quando o governo fala que a prioridade dele é a saúde, é uma mentira porque não há investimento em saneamento”, declarou.
Na opinião do diretor do Greenpeace , contudo, o Brasil também não está indo bem nas outras frentes da batalha ambiental. A queda do desmatamento apresentada pelo governo nas últimas semanas, para ele, está mais relacionada a questões econômicas do que à eficiência na fiscalização.
“O desmatamento caiu depois que pegamos aí quase 15 anos de esforço brasileiro. Mas esse esforço não é única e exclusivamente na área de meio ambiente. O esforço econômico que levou o dólar a R$ 1,35 também interfere nisso. Você percebe que a curva do desmatamento e do dólar são parecidas. O desmatamento na Amazônia é ligado à exportação de commodities. O dólar alto e a impunidade que existe nas questões ambientais levam as pessoas a cometerem ilícitos. Tanto que o desmatamento caiu, mas 80% dele ainda é ilegal”, disse.
A taxa de desmatamento na Amazônia Legal medida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 2011 foi 8% menor que em 2010. A remoção da cobertura florestal no ano passado foi 6,4 quilômetros quadrados, a menor já registrada desde que o monitoramento começou a ser feito. (Fonte: Mariana Jungmann/ Agência Brasil, 22/06/2012)

‘Fertilização’ de oceano pode ajudar a conter aquecimento global, diz estudo


Um novo experimento busca “fertilizar” os oceanos com sulfato de ferro para favorecer a proliferação de fitoplâncton – organismos microscópicos, como algas, que vivem próximo à superfície e servem de alimento para muitos animais. O objetivo é fazer com que esses seres capturem o gás carbônico (CO2) do fundo do mar e possam se tornar uma eventual maneira de combater o aquecimento global.
A pesquisa está descrita na revista “Nature” desta semana e foi feita durante cinco semanas na Antártica. O trabalho é considerado pelos autores uma das provas mais detalhadas da fertilização dos oceanos, prática proibida pela legislação internacional, mas liberada para fins científicos.
De acordo com o pesquisador Michael Steinke, da Universidade de Essex, no Reino Unido, o fitoplâncton faz fotossíntese assim como as plantas em terra firme, armazenando CO2 e liberando O2, o que ajudaria a manter a temperatura ambiente.
Segundo os estudiosos, a proliferação de algas unicelulares chamadas diatomáceas atingiu o pico um mês após o início da experiência. Posteriormente, houve uma significativa mortalidade dessa espécie, o que formou uma massa viscosa, incluindo material fecal do zooplâncton – como peixes, crustáceos e águas vivas –, que rapidamente submergiu para o fundo do oceano.
Os autores dizem que pelo menos metade dessa biomassa já deve ter ultrapassado 1 km de profundidade e uma porção chegou às profundezas. Depois que o fitoplâncton morre, pode ficar por vários anos preso aos sedimentos no fundo do mar.
Apesar da descoberta, Steinke acredita que a técnica não será usada em larga escala para amenizar a mudança climática, pois encontrar o lugar adequado para esses trabalhos é difícil e custa caro.
Em 2007, especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) alertaram sobre os riscos dessa técnica, especialmente para o ambiente marinho, um aspecto ausente no estudo publicado esta semana.
Em outra pesquisa, feita em 2004 nos mares do sul por uma equipe liderada pelo cientista Victor Smetacek, do Instituto de Investigação Marítima, em Bremerhaven, na Alemanha, não foi possível avaliar com precisão a duração dessa captura de CO2. (Fonte: Globo Natureza, 20/07/2012)

Contribuição dos agentes polinizadores para a biodiversidade


Por terem um papel crítico na conservação da biodiversidade e na agricultura, os agentes polinizadores são uma preocupação mundial. Sistematizar o conhecimento adquirido sobre o tema no Brasil, nos últimos anos, é o objetivo do livro Polinizadores no Brasil – Contribuição e perspectivas para a biodiversidade, uso sustentável, conservação e serviços ambientais, que será lançado nesta quinta-feira (26), durante o 10º Encontro sobre Abelhas de Ribeirão Preto, na cidade do interior paulista.
Produzido pelo Grupo de Pesquisa de Serviços Ambientais do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), o livro é resultado de pesquisas que envolveram 85 pesquisadores de 36 instituições científicas, com a finalidade de conhecer a situação dos polinizadores do Brasil, seu impacto na agricultura, na biodiversidade e no agronegócio.
A publicação deriva de estudos apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Fundo Setorial do Agronegócio. Essas pesquisas, por sua vez, tiveram base nos resultados do Projeto Temático “Biodiversidade e uso sustentável de polinizadores, com ênfase em abelhas Meliponini”, coordenado por Vera Lucia Imperatriz Fonseca e realizado no âmbito do programa BIOTA-FAPESP.
Coordenadora do Grupo do IEA, Fonseca também liderou a organização do livro. Os outros organizadores e vice-coordenadores do grupo são Antonio Mauro Saraiva, da Escola Politécnica da USP, e Dora Ann Lange Canhos, do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria). Fonseca atualmente é professora visitante sênior na Universidade Federal Rural do Semiárido.
“O Projeto Temático, encerrado em 2010, foi muito bem-sucedido e, além de possibilitar a formação de pessoal especializado, até hoje apresenta resultados na forma de publicações e teses. O livro é o primeiro documento em português que aborda o conhecimento atualizado sobre polinizadores no Brasil, tanto em áreas naturais como em agroecossistemas”, disse Fonseca à Agência FAPESP.
A qualidade da pesquisa realizada no Temático, segundo Fonseca, foi reconhecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ganhando uma menção honrosa da edição 2011 do Prêmio Capes de Tese Edição e duas indicações para a edição de 2012.
Segundo Fonseca, a preocupação mundial com os polinizadores tem aumentado, uma vez que o seu declínio tem consequências desastrosas tanto para a biodiversidade como para o agronegócio.
Os riscos de perda dos serviços de polinização são especialmente graves quando a agricultura é dependente de uma espécie de polinizador. “O livro está sendo publicado em um momento importante, no qual o desaparecimento das abelhas começa a ser notado também no Brasil”, disse Fonseca.
Segundo ela, o desaparecimento das abelhas foi detectado em 2007 no hemisfério Norte. Na América do Norte, a perda tem sido de 30% das colônias por ano, com necessidade de importação de abelhas para promover a polinização na agricultura. Na Comunidade Europeia, a perda também é expressiva e preocupante. No Brasil, os primeiros casos foram detectados em 2011.
“O livro tem o objetivo de apresentar o tema com foco no Brasil, mas com um resumo da situação global, incluindo uma proposta de estratégia de desenvolvimento da área para o Brasil”, disse Fonseca.
Ação humana – Segundo Fonseca, o livro não esgota o assunto, mas representa uma mobilização sem precedentes da comunidade brasileira de estudos sobre abelhas e polinizadores. “Além dos resultados das nossas pesquisas, o livro também tem o objetivo de formular uma política pública para polinizadores”, disse.
Temas como a importância da paisagem agrícola na manutenção dos serviços dos polinizadores e a necessidade de aumentar o número de coleções biológicas para o estudo da fauna de abelhas são alguns dos destaques do livro. A obra aborda também espécies invasoras e o efeito das ações antrópicas sobre a conservação e uso dos polinizadores.
“Outro destaque é a questão do desaparecimento das abelhas, que permeia todo o livro. O conhecimento começa a avançar nessa área e o livro mostra como esse desaparecimento pode ter ligação com alterações comportamentais humanas – como aumento do uso de pesticidas – e alterações climáticas que podem fragmentar populações desses animais”, explicou Fonseca.
A primeira parte do livro consiste em um estudo da conservação de biomas e as síndromes de polinização e polinizadores vertebrados, apresentando uma lista inédita desses agentes reunida por especialistas brasileiros.
“Nas partes subsequentes, temos uma série de artigos que tratam de polinizadores como besouros e mariposas, mas concentram-se nas abelhas, os polinizadores mais manejados para a agricultura”, disse Fonseca.
Os artigos tratam também de bases de dados de plantas e polinizadores, dos métodos de avaliação de biodiversidade, das coleções de polinizadores e informatização dos acervos, da construção de palinotecas (coleção de grãos de pólen) e sua importância para manejo de polinizadores.
“O livro apresenta ainda uma série de estudos de caso que utilizam a modelagem preditiva como método de comunicação com os tomadores de decisão, abordando eventos climáticos previstos pelo IPCC. Toda a parte de modelagem foi desenvolvida no Projeto Temático”, disse Fonseca. (Fonte: Fábio de Castro/ Agência Fapesp, 27/07/2012)

Nova espécie de crustáceo ganha nome em homenagem a Bob Marley


O pesquisador Paul Sikkel, da Universidade Estadual do Arkansas, nos EUA, ao descobrir uma nova espécie de crustáceo que habita áreas de corais no leste do Caribe, resolveu homenagear o cantor de reggae Bob Marley.
O pequeno parasita Gnathia marleyi ganhou esse nome por causa do “respeito e admiração” que o biólogo tem pela música do artista.
“Além disso, essa espécie é exclusivamente caribenha, como foi o Marley”, disse o especialista ao jornal americano “USA Today”. O animal fica escondido em corais e esponjas, e infesta peixes que vivem por ali. A espécie foi descrita na edição de julho da revista científica “Zootaxa”. (Fonte: Globo Natureza, 22/07/2012)

Esperma congelado evita extinção de corais do Havaí, Caribe e Austrália


Pouco antes do pôr-do-sol no campus do Instituto de Biologia Marinha do Havaí, Mary Hagedorn aguardava a desova de seus corais-cogumelo.
Em relação aos outros corais, o Fungia é bastante confiável, geralmente liberando seu esperma e seus ovos dois dias após a lua cheia. Já haviam se passado três.
“Às vezes ficamos frustrados”, contou, aflita.
Os corais recalcitrantes ficavam ao ar livre, em pratos de vidro cheios de água, dispostos em fileiras em uma mesa de laboratório feita de aço. Cada um deles tinha aproximadamente o tamanho e a forma da parte de cima de um cogumelo portobello, com um resplendor de arestas marrons que irradiava a partir de uma boca cor de rosa, hermeticamente fechada.
Sob o olhar atento de Hagedorn e sua assistente, um dos corais apertava a boca e parecia soltar o ar, lançando uma nuvem de esperma no prato com um vigor surpreendente. A água borbulhava como se fosse aveia quente.
Fisiologista da reprodução do Instituto Smithsonian, Hagedorn, de 57 anos, está basicamente construindo um banco de esperma de corais do mundo todo. Sua expectativa é de que a coleção – criada nos últimos anos a partir de corais encontrados no Havaí, Caribe e Austrália – seja um dia usada para restaurar e até mesmo reconstruir recifes danificados.
Ela estima ter congelado 1 trilhão de amostras de esperma de corais, o suficiente para fertilizar de 500 milhões a 1 bilhão de ovos. Além disso, existem 3 bilhões de células embrionárias congeladas; algumas delas têm características de células estaminais, o que significa que podem ter potencial para se desenvolver como corais adultos.
Em relação ao número de corais presentes no mar, a coleção de Hagedorn – armazenada em seu laboratório e em vários repositórios de zoológicos – é pequena. Até agora, porém, é a única do gênero.
Embora os corais possam se reproduzir de modo assexuado – isto é, fragmentos de corais podem se desenvolver como clones de seus pais – Hagedorn assinala que apenas a reprodução sexual mantém a diversidade genética de populações, e com ela a capacidade de sobrevivência e adaptação de uma espécie frente às mudanças. No caso dos corais, o número de parceiros prováveis está diminuindo: com o aquecimento dos oceanos provocado pela mudança climática, os corais estão se tornando mais vulneráveis a doenças – e ao branqueamento, um problema que faz os corais estressados expelirem as algas coloridas que são fundamentais para o seu suprimento alimentar.
Nos últimos anos, os eventos de branqueamento têm deixado de ser curiosidades locais e se tornado fenômenos mundiais, e em alguns casos, são tão graves e de duração tão longa que os corais não conseguem se recuperar. Enquanto isso, níveis crescentes de dióxido de carbono estão acidificando os oceanos, impedindo o crescimento dos esqueletos dos corais e enfraquecendo lentamente os ossos de carbonato de cálcio dos recifes de todo o mundo.
No Caribe, as altas temperaturas da água, os surtos de doenças, a pesca predatória e outras calamidades já mataram 80 por cento dos corais da região, reduzindo muitos recifes a algas e entulhos. Uma série de problemas similares está matando corais no Pacífico, e acredita-se que a extensão de corais vivos diminuiu pela metade nas partes central e ocidental do oceano entre o início dos anos 1980 e 2003.
Se esse declínio continuar, quase todos os recifes do mundo devem desaparecer até 2050. Estima-se que um quarto de todas as espécies marinhas das quais se tem conhecimento têm alguma associação com recifes de corais; algumas talvez consigam sobreviver com algas, mas não todas. Neste mês, pesquisadores que participaram do Simpósio Internacional de Recifes de Coral em Cairns, na Austrália, resumiram a situação: “Considerados em conjunto, esses fatores de tensão relacionados ao clima representam um desafio sem precedentes para o futuro dos recifes de coral e os serviços que eles prestam às pessoas”.
Para os cientistas marinhos cujas carreiras dependem dos recifes de coral, a coleção de Hagedorn pode trazer tranquilidade.
“A Mary é minha apólice de seguro”, disse Greta Aeby, bióloga que trabalha em um laboratório montado em um cais na Ilha Coconut e estuda doenças de corais em todo o Pacífico.
“Estamos trabalhando o mais rápido possível”, acrescentou, “mas não é suficiente. Eu sempre digo aos meus alunos: ‘Pesquisem mais rápido!’”.
Durante décadas, preservacionistas têm trabalhado para proteger os recifes com reservas marinhas, regulamentos de pesca e outras medidas. Apesar de algumas conquistas importantes, apenas 27 por cento dos recifes do mundo se encontram dentro de reservas, e a criação delas, na melhor das hipóteses, ocorre sem regularidade. Com o aumento das pressões trazidas pelas mudanças climáticas, até mesmo os biólogos marinhos mais otimistas dizem que o futuro dos recifes de corais depende de refúgios – lugares onde as ameaças locais são mínimas, ou onde os corais ficam biologicamente mais adaptáveis às pressões da mudança climática.
Embora Hagedorn apoie essas estratégias tradicionais de preservação, ela está se preparando para vê-las fracassar. Enquanto congela amostras de esperma e ovos de corais para utilização no futuro, colegas seus estão aperfeiçoando técnicas para criar corais em cativeiro, a fim de reintroduzir corais jovens em seus habitats naturais.
Ela e seus colegas, porém, têm que se esforçar para arrecadar dinheiro de modo a sustentar suas iniciativas, que são muitas vezes vistas como uma distração em relação à urgência do trabalho da proteção do habitat.
“Em um mundo ideal, gostaríamos de fazer as duas coisas”, disse Stephen Palumbi, diretor do Estação Marinha Hopkins, da Universidade Stanford. “Claro que, em um mundo ideal, não haveria restrições de financiamento.”
Ainda assim, as duas estratégias podem vir a ser necessárias.
“Proteger as comunidades de peixes, garantir que a qualidade da água seja boa, todos esses esforços podem assegurar a existência de diversos corais por décadas”, disse Nancy Knowlton, renomada bióloga especializada em recifes de coral do Instituto Smithsonian. “Mas se continuarmos nessa trajetória de emissão de gases do efeito estufa, o único lugar onde conseguiremos encontrar muitos corais serão os congeladores da Mary.”
Desde 1949, quando o biólogo britânico Christopher Polge congelou e descongelou com sucesso um frasco de esperma de galo, os cientistas utilizaram a técnica em dezenas de espécies, incluindo seres humanos, porcos, ostras e zangões. No entanto, cada espécie reage de um modo ao congelamento de seu esperma, e dominar a criopreservação de uma única espécie pode levar anos de experimentos.
Os ovos e as amostras de esperma, por serem muito maiores, são ainda mais difíceis de preservar.
“Às vezes, é preciso levar vários tapas na cara para chegar ao próximo passo”, disse Kenneth Storey, pesquisador de criopreservação da Universidade de Carleton, em Ottawa. “Esse é um trabalho árduo, um trabalho empírico árduo. É difícil.”
Em seu trabalho no Havaí e em outros lugares, Hagedorn encontrou não apenas as frustrações, mas também a natureza peculiar e misteriosa dos corais. Ao mesmo tempo vegetais, animais e minerais, os corais são colônias de criaturas simples, chamadas de pólipos, alojadas em esculturas distintas de carbonato de cálcio que formam os recifes de coral.
Pouco se sabe a respeito da reprodução dos corais: a desova periódica de esperma e ovos de coral era basicamente desconhecida pelos cientistas até o início de 1980, quando uma equipe de pesquisadores australianos, ao realizar um mergulho noturno, começou a encontrar inúmeras ovas de cabeça para baixo. Os pesquisadores ainda não sabem ao certo o motivo de tantas desovas estarem ligadas às fases da lua.
Como o coral Fungia do campus do Instituto de Biologia Marinha do Havaí, os corais, por vezes, alteram seus horários de desova previstos, e Hagedorn passou noites na costa de Porto Rico e Belize ansiosa, à espera de que corais ameaçados começassem a sua desova anual em águas abertas.
Mas a sorte esteve com ela no segundo semestre do ano passado, quando viajou com um grupo de colegas para a Austrália, a convite do Instituto Australiano de Ciência Marinha. Usando técnicas desenvolvidas por Hagedorn, eles coletaram e congelaram o esperma e as células de colônias de Acropora tenuis e Acropora millepora, duas das cerca de 400 espécies de corais nativas da Grande Barreira de Corais.
Hoje, as células e as amostras de esperma dos corais estão armazenadas em nitrogênio líquido no Zoológico Taronga Western Plains, em Nova Gales do Sul, juntamente com amostras congeladas de esperma de coalas, cangurus da espécie Petrogale xanthopus e dugongos.
Em 2009, JoGayle Howard, pesquisadora do Zoológico Nacional conhecida como a “rainha do esperma”, produziu grupos saudáveis de furões-do-pé-preto por meio da inseminação de um furão fêmea com esperma coletado e congelado mais de 20 anos antes, proporcionando uma diversidade genética valiosa para as espécies ameaçadas de extinção. Howard, que morreu em 2011, continua sendo uma inspiração para Hagedorn: quando o clima tropical ou os caprichos da desova de corais interrompem o seu trabalho, ela gosta de lembrar que até mesmo um frasco de esperma congelado pode fazer todos os problemas valerem a pena.
“Lembremos do furão-do-pé-preto”, disse ela. “Apenas alguns poucos indivíduos podem fazer com que uma população comece de novo.” (Fonte: Portal iG, 07/08/12)