Animais gigantes que viveram no Brasil há milhões de anos estão sendo encontrados no Acre durante escavações para a reforma de uma rodovia. Os achados mais recentes dos pesquisadores ainda estão em fase de identificação, mas uma das peças já reconhecidas mostra um jacaré de mais de 10 metros de comprimento, o Mourasuchus, que vivia na pré-história.
Pesquisas indicam que há oito milhões de anos, não havia ali floresta, mas um enorme pantanal. Os dinossauros já haviam desaparecido havia muito tempo e a Amazônia era habitada por grandes mamíferos, como o mastodonte, um parente do elefante.
Ossos desses animais são guardados em um acervo no Acre, que tem a maior e melhor coleção de partes de animais pré-históricos da Amazônia. São mais de 5 mil peças, sendo que 800 foram encontradas durante as obras da BR-364, que liga a capital, Rio Branco, à cidade de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre.
Uma das peças do acervo acreano é a o osso da perna de um toxodonte, antepassado dos atuais hipopótamos africanos. O mais temido predador desse período era um réptil, o purussauros. De ponta a ponta, o bicho media mais de 12 metros.
“Existem registros de purussauros na Colômbia, na Venezuela, no Equador, mas o maior de todos é tipicamente encontrado na nossa região.”, afirma o paleontólogo Jonas Filho.
Outra peça interessante é a carapaça da tartaruga mata-matá, que mede 2,46 metros – pelo menos quatro vezes maior do que uma tartaruga adulta que vive hoje na região.
Os pesquisadores acreditam que esses gigantes desapareceram depois de uma grande seca provocada pelo surgimento da Cordilheira dos Andes. Foi nessa época que começaram a surgir muitos dos animais que hoje povoam a floresta amazônica.
“Essa é uma extinção que a própria natureza se encarregou de repor. Em uma extinção provocada, pode não haver tempo suficiente para que a gente possa recuperar um ambiente já degradado”, afirma Jonas. (Fonte: Globo Amazônia, 05/01/2010)
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Fibra amazônica parente do abacaxi entusiasma agricultores no Pará
Agricultores do oeste do Pará estão entusiasmados com o resultado da produção da fibra de curauá, uma planta da Amazônia paraense parente do abacaxi. A planta, depois de processada, é usada na indústria de colchões, calçados e carros.
Há três anos, o agricultor Antônio dos Santos Corrêa deixou a roça, que ficava distante de casa, para trabalhar no próprio quintal. No espaço de um hectare (cerca de um campo de futebol), ele cultiva o curauá. “Eu chego a fazer por dia R$100,00”, falou.
O negócio com fibra vegetal cresceu. Foi preciso chamar o sobrinho. Empolgado o ajudante já planeja o próprio negócio. “Esse ano que vem eu estou no projeto. Foi trabalhar com ele, mas para mim”, planeja o trabalhador rural Arlisson Francisco.
Para ter sucesso no cultivo, os agricultores contam com a ajuda de engenheiros agrônomos que ensinam a preparar a terra, como escolher as mudas e as diversas formas de aproveitamento do curauá.
“Seis por cento da biomassa é fibra. Os outros 94% são transformados num resíduo que o produtor pode aproveitar como ração animal e como adubo orgânico”, explica o agrônomo Cristovan Sena.
As folhas passam pelo processo de descorticação, que separa as fibras, vendidas para uma indústria de beneficiamento. Em 2009, uma indústria comprou dos pequenos produtores da região mais de 34 mil quilos de fibra de curauá.
O negócio será ampliado. O produto está sendo introduzido no setor têxtil para a fabricação de tecido em composição com seda e viscose e o de plástico injetável em substituição à fibra de vidro.
Por enquanto, o setor automobilístico é o que mais compra o produto, usado no acabamento interno dos carros. (Fonte: Globo Amazônia, 05/01/2010)
Há três anos, o agricultor Antônio dos Santos Corrêa deixou a roça, que ficava distante de casa, para trabalhar no próprio quintal. No espaço de um hectare (cerca de um campo de futebol), ele cultiva o curauá. “Eu chego a fazer por dia R$100,00”, falou.
O negócio com fibra vegetal cresceu. Foi preciso chamar o sobrinho. Empolgado o ajudante já planeja o próprio negócio. “Esse ano que vem eu estou no projeto. Foi trabalhar com ele, mas para mim”, planeja o trabalhador rural Arlisson Francisco.
Para ter sucesso no cultivo, os agricultores contam com a ajuda de engenheiros agrônomos que ensinam a preparar a terra, como escolher as mudas e as diversas formas de aproveitamento do curauá.
“Seis por cento da biomassa é fibra. Os outros 94% são transformados num resíduo que o produtor pode aproveitar como ração animal e como adubo orgânico”, explica o agrônomo Cristovan Sena.
As folhas passam pelo processo de descorticação, que separa as fibras, vendidas para uma indústria de beneficiamento. Em 2009, uma indústria comprou dos pequenos produtores da região mais de 34 mil quilos de fibra de curauá.
O negócio será ampliado. O produto está sendo introduzido no setor têxtil para a fabricação de tecido em composição com seda e viscose e o de plástico injetável em substituição à fibra de vidro.
Por enquanto, o setor automobilístico é o que mais compra o produto, usado no acabamento interno dos carros. (Fonte: Globo Amazônia, 05/01/2010)
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Pesquisas mostram que plantas reagem aos perigos externos



Parei de comer carne de porco há cerca de oito anos. Alguns anos depois, parei de comer qualquer carne de mamíferos. No entanto, ainda como peixe e aves, e derramo gemada em meu café. Minhas decisões alimentares são arbitrárias e inconsistentes.
Quando amigos me perguntam por que estou disposta a abandonar o pato, mas não o carneiro, não tenho uma boa resposta. Escolhas alimentares são muitas vezes assim: difíceis de articular, mas vigorosamente mantidas. Ultimamente, discussões sobre escolhas de alimentos têm reluzido com especial veemência.
Em seu novo livro, "Eating Animals," o romancista Jonathan Safran Foer descreve sua transformação gradual de onívoro, um distraído preguiçoso que "passeava entre um número de dietas", para um "vegetariano comprometido".
As plantas reagem a dicas táteis, reconhecem diferentes comprimentos de onda de luz, escutam sinais químicos, elas podem até mesmo falar através de sinais químicos. "
No mês passado, Gary Steiner, filósofo da Universidade Bucknell, argumentou no "New York Times" que as pessoas deveriam lutar para serem "vegetarianos rigorosamente éticos" como ele próprio, evitando qualquer produto derivado de animais, incluindo lã e seda. Matar animais por comidas e roupas humanas é nada menos que um "absoluto assassinato", disse ele.
Porém, antes de cedermos toda a cobertura moral a "vegetarianos comprometidos" e "vegetarianos de forte ética", podemos considerar que as plantas não aspiram ser cozidas numa panela mais do que um porco quer virar comida de Natal. Isto não pretende ser um argumento banal ou uma piadinha. As plantas são seres vivos e planejam continuar dessa forma.
Sensibilidade aguçada
Quanto mais os cientistas aprendem sobre a complexidade das plantas – sua aguçada sensibilidade ao ambiente, a velocidade com que reagem a mudanças no ambiente e o extraordinário número de truques que elas empregam para combater atacantes e solicitar ajuda de longe –, mais impressionados eles ficam.
Quando biólogos de plantas falam de seus assuntos, usam verbos ativos e imagens vívidas. As plantas "buscam" recursos como luz e nutrientes do solo, e "preveem" momentos ruins e oportunidades.
Ao analisar a proporção de luz vermelha e luz vermelha distante caindo em suas folhas, por exemplo, elas podem pressentir a presença de outros concorrentes clorofilados por perto, e tentar crescer para outro lado. Suas raízes percorrem a "rizosfera" subterrânea e empregam trocas interculturais e microbiais.
"As plantas não são estáticas ou tolas", disse Monika Hilker, do Instituto de Biologia da Universidade Livre de Berlim. "Elas reagem a dicas táteis, reconhecem diferentes comprimentos de onda de luz, escutam sinais químicos, elas podem até mesmo falar" através de sinais químicos. Tato, visão, audição, fala. "Essas são modalidades sensoriais e habilidades que normalmente ligamos apenas a animais", disse Hilker.
Plantas não podem correr de uma ameaça, mas podem defender seu território. "Elas são muito boas em evitar serem comidas", disse Linda Walling, da Universidade da Califórnia, em Riverside. "Insetos conseguirem sobrepujar essas defesas é uma situação incomum".
As plantas não são estáticas ou tolas "
À menor mordiscada em suas folhas, células especializadas na superfície da planta liberam elementos químicos para irritar o predador, ou uma substância pegajosa para prendê-lo. Genes no DNA da planta são ativados para travar guerras químicas em todo o sistema, a versão da planta para uma reação imunológica. Nós precisamos de terpenos, alcaloides, fenólicos – vamos nos mexer.
"Estou surpreso com a rapidez com que essas coisas acontecem", disse Consuelo de Moraes, da Universidade Estadual da Pensilvânia. De Moraes e seus colegas realizaram experimentos para cronometrar a reação de uma planta e descobriu que, em menos de 20 minutos do momento em que a lagarta começou a se alimentar de suas folhas, a planta havia puxado carbono do ar e construído barreiras defensivas do zero.
Só porque nós, humanos, não as ouvimos, não significa que as plantas não uivem. Algumas das barreiras que as plantas geram em resposta à mastigação de insetos são elementos químicos voláteis que servem como pedidos de socorro.
Socorro
Tais alarmes aerotransportados provaram atrair grandes insetos predatórios como libélulas, que se deleitam com carne de lagartas, além de pequenos insetos parasitas, que podem infectar uma lagarta e destruí-la de dentro para fora.
Os inimigos dos inimigos das plantas não são os únicos sintonizados na transmissão de emergência. "Algumas dessas dicas, alguns desses elementos voláteis que são liberados quando uma planta focal é danificada", disse Richard Karban, da Universidade da Califórnia, em Davis, "fazem com que outras plantas da mesma espécie, ou mesmo de outras espécies, também se tornem mais resistentes a herbívoros".
Hilker e seus colegas, assim como outras equipes de pesquisadores, descobriram que certas plantas sentem quando ovos de insetos foram depositados em suas folhas, e agirão imediatamente para se livrar da ameaça incubada. Elas podem desenvolver tapetes de neoplasmas parecidos com tumores para derrubar os ovos, ou secretar inseticida para matá-los.
Mesmo se você já tem um conhecimento considerável sobre as plantas ainda é surpreendente ver como elas podem ser sofisticadas ".
Em artigo no "The Proceedings of the National Academy of Sciences", Hilker e seus colegas determinaram que quando uma borboleta fêmea põe seus ovos sobre uma couve de Bruxelas e prende seus tesouros às folhas com pequenas gotas de cola, o vegetal detecta a presença de um simples aditivo da cola, cianureto de benzil.
Avisada pelo aditivo, a planta rapidamente altera a química da superfície de sua folha para chamar vespas parasitas fêmeas. Ao ver o prêmio ancorado, a vespa fêmea injeta seus próprios ovos dentro, as vespas em gestação se alimentam das borboletas em gestação, e o problema da planta está resolvido.
O cianureto de benzil foi doada à borboleta fêmea pelo macho, durante o acasalamento. "É um feromônio anti-afrodisíaco, para que a fêmea não acasale novamente", explicou Hilker. "O macho está tentando assegurar sua paternidade, mas acaba pondo em risco sua própria descendência".
As plantas espiam umas às outras de forma benigna e maligna. Conforme descreveram em "Science" e outros jornais, De Moraes e seus colegas descobriram que mudas de cuscuta, uma erva daninha parasítica parente das flores chamadas de "morning glory", podem detectar químicos voláteis liberados por plantas hospedeiras em potencial, como o tomate.
A jovem cuscuta, então, cresce inexoravelmente na direção do hospedeiro, até conseguir circundar o caule da vítima e começar a sugar sua seiva. A parasita pode até distinguir perfumes de pés de tomate mais saudáveis ou fracos, e se dirigir ao mais conveniente.
"Mesmo se você já tem um conhecimento considerável sobre as plantas", disse De Moraes, "ainda é surpreendente ver como elas podem ser sofisticadas".
É uma pequena tragédia diária que nós, animais, precisemos matar para continuar vivos.
As plantas são os autotrófitos éticos aqui, aqueles que retiram suas refeições do sol. Não espere que elas se vangloriem: elas estão ocupadas demais lutando pela sobrevivência.
(Fonte: New York Times/G1, 04/01/2010)
domingo, 3 de janeiro de 2010
Recifes do Caribe, cada dia mais ameaçados
Efeitos da degradação ambiental são visíveis até nas áreas mais protegidas
Herton Escobar, BONAIRE
As águas transparentes do Caribe não conseguem mais esconder a tragédia ambiental que se passa dentro delas. Poucos metros abaixo da superfície, os recifes de coral da região - assim como os do resto do mundo - estão cada vez mais ameaçados. Estudos indicam que quase 20% dos ecossistemas recifais do mundo já foram exterminados nas últimas décadas pela poluição, pesca predatória e outros impactos trazidos pelo homem. Outros 15% correm sério risco de morrer nos próximos 10 a 20 anos, segundo o último relatório sobre o Estado dos Recifes de Coral do Mundo, produzido em 2008.
O Caribe é a região mais impactada, com 14% de seus recifes já mortos e outros dois terços ameaçados de alguma forma por atividades humanas.
No lugar de ecossistemas altamente dinâmicos e diversificados, repletos de vida multicolorida, o que se vê hoje em muitos mergulhos são paisagens moribundas, delineadas por esqueletos de calcário em que pequenas "manchas" de coral vivo lutam para sobreviver em meio a uma invasão de algas e outros organismos oportunistas. Entre os sobreviventes, muitos estão doentes. E as coisas só devem piorar daqui para frente com o aumento da temperatura e a acidificação da água, efeitos do aquecimento global (mais informações na página ao lado).
"Estamos numa emergência. A situação, que já era crítica sem as mudanças climáticas, tende a ficar muito pior", diz a especialista em biologia marinha Nancy Knowlton, do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, em Washington. A perda global de cobertura coralínea (porcentual de coral vivo sobre os recifes) nos últimos 30 anos, segundo ela, foi de 60%. No Caribe a redução chega a 80%.
Mesmo em lugares considerados "de baixo risco", os sinais de degradação são evidentes. A reportagem do Estado visitou a ilha de Bonaire, parte das Antilhas Holandesas, no sul do Caribe, onde supostamente estão alguns dos recifes de coral mais bem preservados da região. O que se vê debaixo d"água é uma mistura de beleza e destruição. Um ecossistema sufocado. Corais mortos e doentes por todos os lados. Paredões inteiros cobertos por algas. E quase nenhum grande peixe à vista.
Inventários locais indicam que mais da metade da cobertura coralínea de Bonaire já desapareceu nos últimos 20 anos, talvez para sempre. "Tenho pena dos mergulhadores que chegam aqui e acham isso lindo", diz o matemático Genady Filkovsky, que colabora com um projeto voluntário de monitoramento da água na ilha. "Só acham isso porque não viram como era antes."
O problema, segundo pesquisadores locais, é simples: poluição. Bonaire tem cerca de 14 mil habitantes (mais alguns milhares de turistas), nenhuma fonte de água potável e nenhuma estação de tratamento de esgoto. Toda a água usada na ilha é retirada do mar e dessalinizada para consumo humano.
Os efluentes são lançados em fossas, que são drenadas para um aterro público no interior da ilha, sem impermeabilização. Inevitavelmente, o líquido penetra no solo poroso (de origem coralínea) e volta para o oceano. "A água sai do mar limpa e salgada e retorna suja e doce", resume Albert Bianculli, presidente da Fundação Seamonitor, responsável pelo projeto de monitoramento.
Em 1999, ondas de até 5 metros criadas pelo furacão Lenny danificaram gravemente os ecossistemas de águas rasas (até 10 metros de profundidade) de Bonaire. Em condições normais, os corais seriam capazes de se recuperar e recolonizar os recifes. Por causa dos "nutrientes" lançados na água pelo esgoto (principalmente fósforo e nitrogênio), porém, quem tomou conta do lugar foram as algas.
"Corais são animais que gostam de águas claras, com muita luz e poucos nutrientes", explica a bióloga Rita Peachey, da Estação de Pesquisa CIEE, há três anos em Bonaire. Ela explica que o esgoto funciona como um fertilizante para as algas, que crescem muito mais rápido do que os corais: 1 centímetro por semana, versus 1 centímetro por ano.
Uma vez que as algas se fixam no recife é quase impossível despejá-las enquanto houver excesso de nutrientes na água. "A alga vence sempre", diz Bianculli. Os corais acabam marginalizados e encurralados em sua própria casa.
O problema é exacerbado pela ausência do ouriço preto de espinho longo (Diadema antillarum), espécie que era o principal herbívoro dos recifes caribenhos até 1983, quando foi quase exterminada por um evento de mortandade em massa. Sem os ouriços, sobraram só os peixes-papagaios para comer as algas que competem com os corais. "Se não fosse por esses peixes, estaríamos em sérios apuros", diz Rita.
Outra pista do desequilíbrio ambiental em Bonaire é a proliferação do caramujo língua-de-flamingo, um molusco que se alimenta de gorgônias e outros tipos de corais "moles" (parecidos com plantas). Segundo Rita, até alguns anos atrás, um mergulhador ficava feliz de ver dois ou três desses belos moluscos durante um mergulho. Agora, é fácil encontrar 30 ou até mais animais devorando um mesmo coral. A causa mais provável é o sumiço dos predadores naturais do caramujo, como as garoupas, cujas populações diminuíram drasticamente por causa da sobrepesca.
Quem anda marcando presença em Bonaire nos últimos meses é um outro predador, de origem asiática: o peixe-leão. Muito bonito, muito agressivo, e muito indesejado. Trata-se de uma espécie invasora, provavelmente trazida pela água de lastro de navios e que, se não for controlada, poderá ser transformar numa praga.
Nenhum desses problemas é exclusivo de Bonaire. Pelo contrário, a ilha é classificada como uma das mais "saudáveis" do Caribe. Um mau presságio para os recifes que garantem a sobrevivência de milhões de peixes e pessoas na região.
(Fonte: O Estado de São Paulo, 03/01/2010)
Herton Escobar, BONAIRE
As águas transparentes do Caribe não conseguem mais esconder a tragédia ambiental que se passa dentro delas. Poucos metros abaixo da superfície, os recifes de coral da região - assim como os do resto do mundo - estão cada vez mais ameaçados. Estudos indicam que quase 20% dos ecossistemas recifais do mundo já foram exterminados nas últimas décadas pela poluição, pesca predatória e outros impactos trazidos pelo homem. Outros 15% correm sério risco de morrer nos próximos 10 a 20 anos, segundo o último relatório sobre o Estado dos Recifes de Coral do Mundo, produzido em 2008.
O Caribe é a região mais impactada, com 14% de seus recifes já mortos e outros dois terços ameaçados de alguma forma por atividades humanas.
No lugar de ecossistemas altamente dinâmicos e diversificados, repletos de vida multicolorida, o que se vê hoje em muitos mergulhos são paisagens moribundas, delineadas por esqueletos de calcário em que pequenas "manchas" de coral vivo lutam para sobreviver em meio a uma invasão de algas e outros organismos oportunistas. Entre os sobreviventes, muitos estão doentes. E as coisas só devem piorar daqui para frente com o aumento da temperatura e a acidificação da água, efeitos do aquecimento global (mais informações na página ao lado).
"Estamos numa emergência. A situação, que já era crítica sem as mudanças climáticas, tende a ficar muito pior", diz a especialista em biologia marinha Nancy Knowlton, do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, em Washington. A perda global de cobertura coralínea (porcentual de coral vivo sobre os recifes) nos últimos 30 anos, segundo ela, foi de 60%. No Caribe a redução chega a 80%.
Mesmo em lugares considerados "de baixo risco", os sinais de degradação são evidentes. A reportagem do Estado visitou a ilha de Bonaire, parte das Antilhas Holandesas, no sul do Caribe, onde supostamente estão alguns dos recifes de coral mais bem preservados da região. O que se vê debaixo d"água é uma mistura de beleza e destruição. Um ecossistema sufocado. Corais mortos e doentes por todos os lados. Paredões inteiros cobertos por algas. E quase nenhum grande peixe à vista.
Inventários locais indicam que mais da metade da cobertura coralínea de Bonaire já desapareceu nos últimos 20 anos, talvez para sempre. "Tenho pena dos mergulhadores que chegam aqui e acham isso lindo", diz o matemático Genady Filkovsky, que colabora com um projeto voluntário de monitoramento da água na ilha. "Só acham isso porque não viram como era antes."
O problema, segundo pesquisadores locais, é simples: poluição. Bonaire tem cerca de 14 mil habitantes (mais alguns milhares de turistas), nenhuma fonte de água potável e nenhuma estação de tratamento de esgoto. Toda a água usada na ilha é retirada do mar e dessalinizada para consumo humano.
Os efluentes são lançados em fossas, que são drenadas para um aterro público no interior da ilha, sem impermeabilização. Inevitavelmente, o líquido penetra no solo poroso (de origem coralínea) e volta para o oceano. "A água sai do mar limpa e salgada e retorna suja e doce", resume Albert Bianculli, presidente da Fundação Seamonitor, responsável pelo projeto de monitoramento.
Em 1999, ondas de até 5 metros criadas pelo furacão Lenny danificaram gravemente os ecossistemas de águas rasas (até 10 metros de profundidade) de Bonaire. Em condições normais, os corais seriam capazes de se recuperar e recolonizar os recifes. Por causa dos "nutrientes" lançados na água pelo esgoto (principalmente fósforo e nitrogênio), porém, quem tomou conta do lugar foram as algas.
"Corais são animais que gostam de águas claras, com muita luz e poucos nutrientes", explica a bióloga Rita Peachey, da Estação de Pesquisa CIEE, há três anos em Bonaire. Ela explica que o esgoto funciona como um fertilizante para as algas, que crescem muito mais rápido do que os corais: 1 centímetro por semana, versus 1 centímetro por ano.
Uma vez que as algas se fixam no recife é quase impossível despejá-las enquanto houver excesso de nutrientes na água. "A alga vence sempre", diz Bianculli. Os corais acabam marginalizados e encurralados em sua própria casa.
O problema é exacerbado pela ausência do ouriço preto de espinho longo (Diadema antillarum), espécie que era o principal herbívoro dos recifes caribenhos até 1983, quando foi quase exterminada por um evento de mortandade em massa. Sem os ouriços, sobraram só os peixes-papagaios para comer as algas que competem com os corais. "Se não fosse por esses peixes, estaríamos em sérios apuros", diz Rita.
Outra pista do desequilíbrio ambiental em Bonaire é a proliferação do caramujo língua-de-flamingo, um molusco que se alimenta de gorgônias e outros tipos de corais "moles" (parecidos com plantas). Segundo Rita, até alguns anos atrás, um mergulhador ficava feliz de ver dois ou três desses belos moluscos durante um mergulho. Agora, é fácil encontrar 30 ou até mais animais devorando um mesmo coral. A causa mais provável é o sumiço dos predadores naturais do caramujo, como as garoupas, cujas populações diminuíram drasticamente por causa da sobrepesca.
Quem anda marcando presença em Bonaire nos últimos meses é um outro predador, de origem asiática: o peixe-leão. Muito bonito, muito agressivo, e muito indesejado. Trata-se de uma espécie invasora, provavelmente trazida pela água de lastro de navios e que, se não for controlada, poderá ser transformar numa praga.
Nenhum desses problemas é exclusivo de Bonaire. Pelo contrário, a ilha é classificada como uma das mais "saudáveis" do Caribe. Um mau presságio para os recifes que garantem a sobrevivência de milhões de peixes e pessoas na região.
(Fonte: O Estado de São Paulo, 03/01/2010)
Serviço 0800 ajuda a identificar doenças raras
Médicos de todo o País recorrem à equipe da Unifesp para confirmar diagnósticos de erros do metabolismo
Alexandre Gonçalves
Com apenas dois anos, Matheus Almeida foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital do Servidor Estadual. Só conseguia respirar com a ajuda de aparelhos. Os antibióticos não venciam a infecção que debilitava seu pequeno corpo e os médicos eram incapazes de um diagnóstico.
Cansados de um esforço ineficaz, decidiram solicitar ajuda para uma equipe especializada em doenças que poucos conhecem, mesmo nas faculdades de Medicina. Ligaram para o 0800 do Instituto de Genética e Erros Inatos do Metabolismo (Igeim), ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O telefone 0800 ajuda médicos do Brasil inteiro a diagnosticar erros inatos do metabolismo, distúrbios hereditários que afetam o funcionamento das células. "Mesmo nas melhores faculdades o assunto só é tratado de raspão", diz a geneticista e idealizadora do projeto, Ana Maria Martins, que também leciona na Unifesp. Como consequência, muitas pessoas em todo o País sofrem com um mal cuja causa permanece desconhecida. Há cerca de 550 erros inatos do metabolismo conhecidos. Existe tratamento para a metade deles. As doenças atingem um a cada 2,5 mil nascidos vivos.
Em menos de 24 horas, o pediatra Marco Silveira, do Igeim, contactou os médicos do Hospital do Servidor Estadual para colher mais informações sobre Matheus. Anotou tudo cuidadosamente.
Os dados alimentaram a discussão de uma junta multidisciplinar reunida ao redor de uma mesa coberta de tratados de medicina: os especialistas também dependem da bibliografia quando o tema são erros genéticos raros. O grupo decidiu sugerir um exame de sangue à equipe que cuidava de Matheus.
O exame demorou dez dias para ficar pronto. "Foram momentos de muita ansiedade, pois meu filho ficava cada vez pior", recorda a professora Cristina Moraes, mãe de Matheus.
O resultado confirmou as suspeitas do grupo do Igeim: Matheus tem mucopolissacaridose do tipo um (MPS-I). Cristina recorda como a geneticista Ana Maria Martins explicou a doença: "Imagine uma cozinha cheia de louça suja e sem água." O corpo de Matheus não produz uma enzima necessária para eliminar sobras do metabolismo.
Já existe um tratamento para a MPS-I: uma terapia baseada na reposição da enzima ausente. Não havia tempo a perder. Silveira e Ana Maria foram até a UTI do Hospital do Servidor Estadual e realizaram a primeira reposição enzimática com um remédio cedido pela Associação Paulista de Mucopolissacaridoses. Também orientaram a equipe de enfermagem do hospital que ainda não sabia como tratar a doença.
Após a segunda reposição, Matheus conseguiu respirar sozinho. Depois de um mês, voltou para casa. Ana Maria, fundadora do Igeim, mostra com orgulho o convite para o aniversário de três anos de Matheus.
AUXÍLIO
Com o atraso no diagnóstico, muitos erros inatos do metabolismo geram sequelas. A MPS, por exemplo, pode produzir complicações respiratórias graves, deformidade do crânio, infecções recorrentes, cegueira e hidrocefalia. Se diagnosticada precocemente, os danos diminuem muito.
Desde agosto do ano passado, quando o 0800 foi lançado, cerca de 200 pessoas já utilizaram o serviço, que é voltado especificamente para profissionais de saúde (mais informações nesta página). Em 18 ocasiões, confirmou-se o diagnóstico de um erro inato do metabolismo.
Quase 30% dos telefonemas diziam respeito a crianças de 1 a 6 anos e 84,5%, a meninos e meninas com menos de 10 anos. "A maior parte dos erros inatos são diagnosticados na infância", aponta Ana Maria.
DECISÕES
Silveira afirma ser um aprendiz entre os profissionais do instituto. Mas gosta muito do trabalho que realiza. Especializado em pediatria, manifestou tanto interesse pelo trabalho do Igeim que recebeu um convite de Ana Maria para auxiliá-la no 0800.
A geneticista considera importante ensinar os estudantes de Medicina a identificar os erros metabólicos na faculdade. "Há muitas pessoas em todo o País que são tratadas como portadoras de uma doença, mas, na realidade, possuem outra", afirma Ana Maria. "Também é importante a existência de serviços como o 0800 para ajudar os profissionais de saúde na tomada de decisões."
Cerca de 69,5% dos chamados vieram do Estado de São Paulo. Minas Gerais contribuiu com 11,5% da procura. Mas também houve contatos da região Nordeste (9%), Centro-oeste (4,5%), Sul (4%) e Norte (2,5%).
O estudante Anderson Costa Palheta, de 20 anos, tem MPS e veio de Belém (PA) para realizar uma cirurgia de glaucoma no Estado. Sua médica no Pará ligou para o 0800 e solicitou uma ajuda para realizar a reposição enzimática no Igeim enquanto Palheta estivesse em São Paulo.
(Fonte: O Estado de São Paulo, 03/01/2010)
Alexandre Gonçalves
Com apenas dois anos, Matheus Almeida foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital do Servidor Estadual. Só conseguia respirar com a ajuda de aparelhos. Os antibióticos não venciam a infecção que debilitava seu pequeno corpo e os médicos eram incapazes de um diagnóstico.
Cansados de um esforço ineficaz, decidiram solicitar ajuda para uma equipe especializada em doenças que poucos conhecem, mesmo nas faculdades de Medicina. Ligaram para o 0800 do Instituto de Genética e Erros Inatos do Metabolismo (Igeim), ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O telefone 0800 ajuda médicos do Brasil inteiro a diagnosticar erros inatos do metabolismo, distúrbios hereditários que afetam o funcionamento das células. "Mesmo nas melhores faculdades o assunto só é tratado de raspão", diz a geneticista e idealizadora do projeto, Ana Maria Martins, que também leciona na Unifesp. Como consequência, muitas pessoas em todo o País sofrem com um mal cuja causa permanece desconhecida. Há cerca de 550 erros inatos do metabolismo conhecidos. Existe tratamento para a metade deles. As doenças atingem um a cada 2,5 mil nascidos vivos.
Em menos de 24 horas, o pediatra Marco Silveira, do Igeim, contactou os médicos do Hospital do Servidor Estadual para colher mais informações sobre Matheus. Anotou tudo cuidadosamente.
Os dados alimentaram a discussão de uma junta multidisciplinar reunida ao redor de uma mesa coberta de tratados de medicina: os especialistas também dependem da bibliografia quando o tema são erros genéticos raros. O grupo decidiu sugerir um exame de sangue à equipe que cuidava de Matheus.
O exame demorou dez dias para ficar pronto. "Foram momentos de muita ansiedade, pois meu filho ficava cada vez pior", recorda a professora Cristina Moraes, mãe de Matheus.
O resultado confirmou as suspeitas do grupo do Igeim: Matheus tem mucopolissacaridose do tipo um (MPS-I). Cristina recorda como a geneticista Ana Maria Martins explicou a doença: "Imagine uma cozinha cheia de louça suja e sem água." O corpo de Matheus não produz uma enzima necessária para eliminar sobras do metabolismo.
Já existe um tratamento para a MPS-I: uma terapia baseada na reposição da enzima ausente. Não havia tempo a perder. Silveira e Ana Maria foram até a UTI do Hospital do Servidor Estadual e realizaram a primeira reposição enzimática com um remédio cedido pela Associação Paulista de Mucopolissacaridoses. Também orientaram a equipe de enfermagem do hospital que ainda não sabia como tratar a doença.
Após a segunda reposição, Matheus conseguiu respirar sozinho. Depois de um mês, voltou para casa. Ana Maria, fundadora do Igeim, mostra com orgulho o convite para o aniversário de três anos de Matheus.
AUXÍLIO
Com o atraso no diagnóstico, muitos erros inatos do metabolismo geram sequelas. A MPS, por exemplo, pode produzir complicações respiratórias graves, deformidade do crânio, infecções recorrentes, cegueira e hidrocefalia. Se diagnosticada precocemente, os danos diminuem muito.
Desde agosto do ano passado, quando o 0800 foi lançado, cerca de 200 pessoas já utilizaram o serviço, que é voltado especificamente para profissionais de saúde (mais informações nesta página). Em 18 ocasiões, confirmou-se o diagnóstico de um erro inato do metabolismo.
Quase 30% dos telefonemas diziam respeito a crianças de 1 a 6 anos e 84,5%, a meninos e meninas com menos de 10 anos. "A maior parte dos erros inatos são diagnosticados na infância", aponta Ana Maria.
DECISÕES
Silveira afirma ser um aprendiz entre os profissionais do instituto. Mas gosta muito do trabalho que realiza. Especializado em pediatria, manifestou tanto interesse pelo trabalho do Igeim que recebeu um convite de Ana Maria para auxiliá-la no 0800.
A geneticista considera importante ensinar os estudantes de Medicina a identificar os erros metabólicos na faculdade. "Há muitas pessoas em todo o País que são tratadas como portadoras de uma doença, mas, na realidade, possuem outra", afirma Ana Maria. "Também é importante a existência de serviços como o 0800 para ajudar os profissionais de saúde na tomada de decisões."
Cerca de 69,5% dos chamados vieram do Estado de São Paulo. Minas Gerais contribuiu com 11,5% da procura. Mas também houve contatos da região Nordeste (9%), Centro-oeste (4,5%), Sul (4%) e Norte (2,5%).
O estudante Anderson Costa Palheta, de 20 anos, tem MPS e veio de Belém (PA) para realizar uma cirurgia de glaucoma no Estado. Sua médica no Pará ligou para o 0800 e solicitou uma ajuda para realizar a reposição enzimática no Igeim enquanto Palheta estivesse em São Paulo.
(Fonte: O Estado de São Paulo, 03/01/2010)
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